São Paulo: 100 dias até o fundo do poço

A atual seca em São Paulo atingiu um nível crítico e continua em direção ao fundo do poço. A maior cidade do Brasil, lar de mais de 10 milhões de pessoas, pode ficar totalmente sem água nos próximos 100 dias, de acordo com o Ministério Público Federal.

O Sistema Cantareira, que abastece 45% da população da região metropolitana, atingiu recentemente menos de 10% de capacidade, um recorde de baixa. Apesar das recomendações técnicas de racionamento do fornecimento de água, o governo do estado de São Paulo falhou em implementar a medida.

Em vez disso, a SABESP ofereceu incentivos econômicos para os cidadãos reduzirem seu consumo, buscou água em outros reservatórios e implantou um sistema de rodízio de redução de pressão na malha de distribuição por região da cidade.

No entanto, como os níveis de água nos reservatórios continuam a baixar, a Sabesp tem recorrido ao bombeamento do que ficou conhecido como volume morto dos reservatórios da Cantareira, termo que se refere à água existente abaixo do nível que não é normalmente usado.

Motivações políticas têm sido citadas como a causa da negação da gravidade da crise por parte do governador do estado, que concorre à reeleição, dada a proximidade das eleições.

Rios voadores

Neste último ano, não só as temperaturas foram mais elevadas do que o habitual, mas também as chuvas que normalmente viajam da Amazônia para a região central e sudeste do país não conseguiram chegar.

“A última temporada de chuvas foi mais seca do que a média das estações secas”, disse Mauro Arce, secretário de recursos hídricos do Estado de São Paulo, ao jornal inglês The Guardian.

A não chegada das chuvas foi atribuída à perda do que tem sido chamado de “rios voadores”, grandes volumes de vapor de água liberados pelas árvores da Amazônia que são transportados na alta atmosfera para o centrooeste e o sudeste do país.

Os cientistas brasileiros têm alertado que a ausência desses rios voadores não é um capricho da natureza, mas um efeito do contínuo desmatamento da Amazônia agravado pelas mudanças climáticas.

Os últimos dados divulgados pelo governo brasileiro mostram que o desmatamento na Amazônia aumentou 29% em 2013, revertendo parte dos ganhos conseguidos desde 2009.

Enquanto isso, a Organização Meteorológica Mundial alerta que as concentrações de dióxido de carbono na atmosfera terrestre atingiram níveis recordes este ano, e urge a tomada de medidas pelos governos para combater esta tendência e limitar o aquecimento global abaixo de níveis perigosos.

Os cientistas também alertam que “megasecas” se tornarão cada vez mais comuns neste século com o agravamento das mudanças climáticas, resultando possivelmente em décadas sem chuva. E a América do Sul deverá ser afetada.

Na sua avaliação mais recente, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU, alertou que a região sulamericana poderia experimentar extremos de temperatura até o final do século. É provável que a região experimente um grande aumento tanto da frequência quanto da intensidade das ondas de calor.

Neste cenário, serão agudamente desafiadas a segurança do abastecimento de água e a segurança alimentar. Desnecessário dizer que, se a segurança hídrica da região ficar realmente em perigo, o bem estar econômico e social da região também estarão.

Fonte: Marianna Musset. Colaboração: Delcio Rodrigues‎, para o Fórum REBIA Norte.